20171027AndreLevyPublicamos os poemas de Vladimir Maiakovski, Vicente Huidobro, Bertolt Brecht, Pablo Neruda e Sidónio Muralha e um excerto de um artigo de Mário Dionísio, lidos por André Levy, actor e professor, que apresentou a Festa do Centenário da Revolução de Outubro.


 

 

 

 

 

Ode à Revolução

Vladimir Maiakovski, 1918

A ti,
Assobiada, escarnecida por balas de metralhadoras,
a ti,
que as baionetas ferem,
que as maldições envolvem,
grito enebriado
o início da ode solene.
Oh! Bestial!
Oh! Ingénua!
Oh! Mesquinha!
Oh! Sublime!
Que outro nome te foi dado?
Em que te tornarás, ser de duplo rosto?
Uma arquitectura harmoniosa
ou um amontoado de ruínas?
Exaltas o maquinista
coberto pela poeira do carvão,
o mineiro que perfura as entranhas da terra...
Exaltas,
veneras
o trabalho humano.
E amanhã... (…)
Os burgueses amaldiçoam-te:
«Oh! sê três vezes maldita!»
mas o poeta,
eu,
dou-te a minha bênção:
Oh! Quatro vezes bendita, sê gloriosa!


Despertar de Outubro de 1917

Vicente Huidobro

Redobram os tambores de sangue
E a dor dos tempos levanta-se com os punhos erguidos
Diana toca o clarim dos séculos
Sobre as terras e os mares
Despertem proletários, sacudam as jubas de leão
Como os ramagem furiosa das ondas
ou como essa bandeira que palpita no céu
Essa bandeira cor de coração
Derruba-se um mundo, outro se ergue
Uma procissão caminha lentamente para a morte
E outra marcha, cantando, em direção à vida
Uma é o passado que se esconde
Outra é a manhã que desperta e que vibra
Como a asa do dia
Os planetas renascem, os rios detêm-se
Troco  toda a minha vida por esta estrela nova
As flores dizem versos, as colinas escutam
Troco pelos vossos punhos, os gritos da minha boca
Troco o vosso suor pelas minhas pombas
Voltem às grutas funerárias
Inimigos do homem e seu destino
Não queremos ver os vossos rostos de gesso
Nem ouvir os vossos passos de lobo no caminho
Fantasma do passado, eu não fui o teu pastor
Eu não aplaudi os teus dias nem contei teus diamantes
Eu não alimentei teus pássaros nem percorri tuas montanhas
Cuida dos teus cabelos debaixo da terra
Cuida da tua carne que sabe a raízes
Serás útil no final, no silêncio do túmulo
O teu sangue será seiva
Teus braços serão ramos
E os teus dedos perdidos serão frutos
Homem és homem e não o sabias
Tua é a terra e o céu que dominas
Como é teu, o teu esforço
E o fumo das tuas fábricas, escadas do ar
E o trigo de teus sulcos amado pelo vento
Homem és homem e não o sabias
Mas hoje os clarins vermelhos clamam
Gritam-te das árvores
Canto-te dos mares
Desperta do teu sonho, não serás mais escravo
És homem sal de ti mesmo sal das tuas profundidades
Mostra-te ao sol
Liberta as tuas forças
Desdobra as tuas energias
És homem, és homem

Grande Outubro

Bertolt Brecht, 1937
No vigésimo aniversário da Revolução de Outubro

Oh grande Outubro da classe trabalhadora!
Por fim levantaram-se
os que estavam Há tanto tempo vergados.
Oh, soldados,
que por fim
Apontaram os seus fuzis na direcção certa!
Os que lavraram terras na primavera
Não o fizeram para si mesmos.
No Verão
Curvaram-se mais baixos ainda.
Mas a colheita
Foi para os celeiros dos senhores.
Mas Outubro
viu o pão, finalmente, nas mãos certas!
Desde então
O mundo tem esperança.
O mineiro Galês e o coolie Manchuriano
E o operário da Pensilvânia, que vive pior que um cão
E o Alemão, meu irmão, que os inveja a todos
sabem,
Existe um Outubro.
Mesmo os aviões dos fascistas, que
Voam no alto para o atacar, são vistos
pelo soldado da milícia espanhol
com menos ansiedade.
Mas em Moscovo, a famosa capital
de todos os trabalhadores
Move-se cada ano na Praça Vermelha
A infindável marcha dos vitoriosos.
Levam consigo os emblemas das suas fábricas
Imagens de tractores e fardos de lã das fábricas têxteis.
Também as espigas de milho das indústrias de cereais.
Sobre eles os aviões de combate
Escurecem o céu e em frente deles
Os seus regimentos e esquadrões de tanques.
Em largas faixas de pano
Levam os seus lemas e
Os retratos dos seus grandes mestres.
As faixas são transparentes, de modo que
Tudo isto pode ser visto de ambos os lados.
Estreitas, em mastros grossos
Ondulam as altas bandeiras. Nas ruas longínquas
Quando a marcha chega ao fim
Há danças animadas e jogos. Cheios de alegria
Progride a marcha, muitos lado a lado, cheios de alegria
Mas a todos os opressores
Uma ameaça.
Oh grande Outubro da classe operária!


Sobre a Revolução de Outubro

Mário Dionísio, 1977

«Celebrar a Revolução de Outubro é recordar com emoção e — bom será — com a cabeça fria esses «dez dias que abalaram o Mundo», que não foram dias, foram meses, que não foram meses, foram anos e muitos anos ainda continuarão a ser.
Celebrar a Revolução de Outubro é não deixar cair no esquecimento, ou diluir-se em sessões mais ou menos solenes, esse “segundo dia da criação”: a criação surgindo dum caos generalizado, a capacidade heróica e lúcida que o dominou e canalizou em caudalosa torrente orientada a caminho duma nova fase da vida da humanidade, assim se transformando no acontecimento histórico mais importante da nossa época e num dos mais importantes da História de todos os tempos.
Celebrar a Revolução de Outubro é evocar esse turbilhão em ritmo crescente de forças digladiantes, a fome e a morte nas trincheiras, as longas bichas sob a neve para o pão e o leite, os comícios nas ruas, nos eléctricos, nos comboios e os poetas declamando os seus poemas de luta (...) o grito de milhões de operários, soldados, camponeses ecoando até aos confins da Rússia — "Todo o poder aos sovietes" — a actividade febril no Instituto Smolny, o assalto ao Palácio de Inverno, a longa guerra civil, com os seus sete milhões de mortos pela fome, pela epidemia, pela situação económica desesperada, as tentativas goradas de invasão pelos exércitos estrangeiros, as pilhagens, as sabotagens a todos os níveis, os fluxos e refluxos duma onda avassaladora e a vitória, enfim, dos que só tinham as suas algemas a perder e que, quebrando-as, instauraram a primeira república de operários e camponeses.
A história da Revolução de Outubro é um manancial de ensinamentos para todos os que estão sinceramente empenhados na construção duma verdadeira democracia, ou seja, do socialismo, ou seja, duma sociedade sem classes. Porque não pode haver verdadeira democracia, por mais teses brilhantes que se esforcem por demonstrar o contrário, onde vigore uma situação que permita a existência de exploradores e explorados.» ~A Revolução de 1917 não acabou em 1917, mas em 1917 apenas começava.~ [parafrase]


Ode a Lénine (início)

Pablo Neruda

A revolução tem 40 anos.
Tem a idade de uma jovem madura.
Tem a idade das mães bonitas.
Quando nasceu,
no mundo
se soube a notícia
de forma diferente.
- Que é isso? – perguntaram-se os bispos –
Moveu-se a terra,
Não podemos continuar vendendo céu.
Os governos da Europa,
da América ultrajada,
os ditadores turvos,
liam em silêncio
os alarmantes comunicados.
Por suaves, por profundas
escadas
subia um telegrama,
como sobre a febre
no termômetro:
já não havia dúvida,
o povo havia vencido,
o mundo se transformava.


Sidónio Muralha

Por tudo o que és
Por tudo o que foste
Por aquela pedrada
Que arremessaste ao futuro
Outubro, meu companheiro
Obrigado por teres nascido.