Por Dulce Rebelo

Revista Paz e Amizade, n.º 5, ano II/77, pp. 2-5

O Dia Internacional da Mulher e a Mulher Sovietica

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As lutas desenvolvidas e as vitórias alcançadas por amplas camadas da população feminina em vários países e continentes, contra a miséria, a opressão, o racismo, o fascismo e a guerra, são a prova iniludível de quanto é indispensável o contributo das mulheres para a causa da liberdade, do progresso, da justiça e da paz mundial.

A história de cada país, com vicissitudes e êxitos, conta com as suas heroínas, mulheres que se revoltaram contra a exploração, que se distinguiram na conquista dos seus direitos, integradas na luta geral dos seus povos.
Símbolo de todas as reivindicações, de todas as batalhas sustentadas por firmes combatentes em prol da sua emancipação, e, por conseguinte, pela construção de uma sociedade mais equitativa, é o 8 de Março, proclamado Dia Internacional da Mulher em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhaga. Nesta conferência mais de cem delegadas representaram 17 países, tendo-se analisado a situação das trabalhadoras e das suas formas de luta em 14 países, entre os quais
Portugal e a Rússia.

As mulheres russas, aliás, há muito que desenvolviam uma intensa acção na sua pátria, organizando-se, lutando pelo direito ao trabalho, por condições de vida decentes, exigindo protecção à infância, defendendo os direitos da criança. Apesar das dificuldades internas, representantes do seu país participaram sempre nos encontros internacionais, onde eram debatidos os problemas da mãe, da cidadã, da trabalhadora.

A decisão tomada em Copenhaga revestiu-se de grande significado histórico.

O Dia Internacional da Mulher e a Mulher Sovietica f1O dia 8 de Março passou não só a recordar a grande manifestação das operárias têxteis de Nova Iorque, em 1857, para exigirem o horário de 8 horas de trabalho, como se tornou um estímulo para a mobilização de milhares e milhares de mulheres em todo o mundo que, ao longo dos anos, souberam transformar a efeméride numa grande jornada de acção pelos seus direitos, pela paz, pela solidariedade internacional. Em 1911, a celebração do Dia Internacional da Mulher ocorreu em quatro países e em 1913 a data foi festejada na Rússia. Delegadas deste país cooperaram igualmente nos trabalhos na Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada em Berna em 1915.

Com a vitória da Revolução de Outubro de 1917 as condições de vida das habitantes do vasto território da Rússia foram profundamente alteradas e grandes modificações se iniciaram. Por isso Lénine podia afirmar, com inteira verdade, quando das celebrações do 8 de Março de 1921: "No nosso país, na Rússia Soviética, não restam vestígios da desigualdade entre o homem e a mulher perante a lei. A desigualdade no casamento, na família foi completamente eliminada pelo poder soviético. Este é apenas um primeiro passo para a libertação da mulher; mas nenhuma república burguesa, mesmo a mais democrática, ousou alguma vez dar este primeiro passo".

A inserção das mulheres no trabalho produtivo, na construção do socialismo, no combate contra os inimigos do povo soviético, tornou-se uma realidade crescente.

O Dia Internacional da Mulher e a Mulher Sovietica f2Nos duros anos da, guerra, elas substituíram os homens nas fábricas, organizaram a defesa da rectaguarda, ergueram barreiras defensivas nos arredores de Moscovo, entraram em renhidos combates. Perante a feroz agressão fascista lançaram um apelo a todas as mulheres do mundo, para formarem "uma frente unida de luta contra o hitlerismo sanguinário". Ao apelo responderam personalidades, mulheres de todos os credos religiosos, organizações femininas de todos os países, que promoveram uma ampla campanha de solidariedade à luta heróica das soviéticas.

O Dia Internacional da Mulher e a Mulher Sovietica f3Assim nasceu o Comité das Mulheres Soviéticas que, uma vez terminada a guerra, foi o grande impulsionador e iniciador, em conjunto com outras organizações femininas progressistas de mais de 40 países, da Federação Democrática Internacional das Mulheres (F.D.I.M.), instituída no Congresso Internacional das Mulheres, em Paris em 1 de Dezembro de 1945. Aí juraram solenemente empregar todos os seus esforços para preservar a paz e assegurar no mundo a verdadeira democracia, a fim de se criarem condições que possibilitem o reconhecimento dos direitos sociais, civis, económicos e políticos das mulheres, que permitam o desenvolvimento harmonioso e feliz das crianças. Estes princípios foram a base de toda a actividade da Federação, em cujos trabalhos têm sempre participado as delegadas da União Soviética.

Fiel aos seus objectivos, o Comité das Mulheres Soviéticas tem defendido o desarmamento geral e completo, lutado pela proibição dos ensaios nucleares, desencadeado campanhas de solidariedade para apoiar as mulheres dos países em luta pela independência nacional.

No nosso país, durante os anos do fascismo sob o regime salazarista, as mulheres progressistas portuguesas receberam sempre o mais incondicional apoio das soviéticas, avaliaram devidamente o fundo significado da solidariedade internacional, da força das mulheres, unidas contra a exploração e a guerra colonial.

A vitória conseguida em 25 de Abril de 1974 sobre as forças obscurantistas que dominavam Portugal foi saudada com alegria pelas mulheres soviéticas que, de imediato, enviaram mensagens calorosas e ofereceram a sua generosa ajuda. Dois acontecimentos importantes estreitaram ainda mais as relações amistosas entre a população feminina dos dois países: a visita a Portugal da cosmonauta Valentina Terechkova, presidente do Comité das Mulheres Soviéticas, em Junho de 1975, no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Mulher, e o encontro em Lisboa do executivo da Federação Democrática Internacional das Mulheres, em Novembro de 1976. A reunião assumiu especial importância por ter ocorrido no primeiro ano do Decénio da Mulher proclamado pela O.N.U., sob o lema "Igualdade, Desenvolvimento e Paz", dando-se assim execução às resoluções tomadas no Congresso Mundial de Mulheres. Realizado em Outubro de 1975 na capital da R. D. A. o Congresso foi o remate da intensa actividade desenvolvida em todo o mundo para celebrar o Ano Internacional da Mulher. Os objectivos residiam sobretudo no lançamento de um programa internacional de acção que abarcasse medidas a curto e a longo prazo, no sentido de promover a integração das mulheres, em igualdade com os homens, no valor global do desenvolvimento, e de eliminar a discriminação de toda a espécie que as atinge.
O Comité das Mulheres Soviéticas esteve presente em numerosos simpósios, encontros e conferências, nacionais e internacionais, preparatórios do Congresso.

O Dia Internacional da Mulher e a Mulher Sovietica f4Nesse contexto, a celebração do 8 de Março de 1975 adquiriu uma nova significação, pois não só serviu para se fazer um balanço das lutas empreendidas pela mulher no passado e no presente, e dos êxitos alcançados, como marcou novo ponto de partida para se iniciarem transformações de fundo respeitantes à situação feminina nos próximos dez anos. Muito embora os progressos registados no seu País sejam continuados, as mulheres soviéticas permanecem vigilantes e actuantes, pois a discriminação contra a parte feminina da humanidade ainda não desapareceu em numerosos países, e a fome e a infelicidade das crianças ainda não terminou em muitos lugares da terra. Generosas e solidárias, elas recebem delegações estrangeiras, a quem informam sobre o seu trabalho, a quem confiam as vias encontradas para solucionar a questão feminina na URSS. Paralelamente ocupam-se dos direitos da mulher, dos problemas da infância, fomentam campanhas de solidariedade a favor das combatentes pela liberdade e a independência, cultivam relações de amizade com as mulheres dos países da Europa, da Ásia, da África, da América Latina.

Na União Soviética, onde 92,5% das mulheres trabalham na economia nacional, 71% estão representadas no ensino, onde 28 mulheres são ministros, 475 deputadas do Soviete Supremo (dos 1517 existentes) e 40 000 deputadas dos sovietes locais, a mulher tem os mesmos direitos que o homem em todos os domínios da vida económica, pública, cultural, social e política, e exerce-os plenamente. Ela tornou-se uma grande força criadora, contribuindo para o desenvolvimento avançado da sociedade socialista.

Na União Soviética, onde foram suprimidos todos os obstáculos que se opunham à livre expansão da personalidade feminina, o Dia Internacional da Mulher é um dia de festa e de alegria, de oferta de flores, de homenagem ao trabalho, à inteligência, à coragem e energia inesgotável das mulheres. Nessa homenagem envolvem-se as mulheres que no passado escreveram páginas gloriosas da história do país com o seu sacrifício, a sua resistência, a sua capacidade de luta, e as mulheres que diariamente, com entusiasmo e dedicação, convertem as mais belas aspirações de bem-estar e felicidade numa luminosa realidade.

Festejamos este ano o 67.º aniversário do Dia Internacional da Mulher. Dia de regozijo pela vitória socialista das mulheres, dia de fraterno apoio às lutas pela liberdade e pela democracia, que une homens e mulheres no mesmo combate contra a guerra e a defesa intransigente da paz, única garantia para assegurar uma vida digna, única via para a construção de uma sociedade livre de ameaças e de perigos e, portanto, mais justa e humana.

 

 

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